Atenção Primária à Saúde na abordagem da Doença Renal Crônica Não Dialítica: evidências científicas e perspectiva de usuários do SUS
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Resumo
Introdução: A Doença Renal Crônica não dialítica (DRC-ND), tem sido descrita como um desafio relevante para a Atenção Primária à Saúde (APS), especialmente no que se refere à detecção precoce, ao acompanhamento longitudinal e à prevenção da progressão para Terapia Renal Substitutiva (TRS). Embora existam protocolos e diretrizes voltados à sua abordagem, observa-se fragilidade na implementação dessas estratégias na APS. Objetivo: Analisar a APS na abordagem da Doença Renal Crônica Não Dialítica, com base em evidências científicas e na perspectiva de usuários do Sistema Único de Saúde (SUS). Método: Estudo multimétodo estruturado em dois eixos complementares, sendo: (1) revisão de escopo que mapeou evidências científicas sobre a capacidade institucional da APS na abordagem à DRC-ND; e (2) estudo observacional, transversal e descritivo, que analisou o cuidado primário recebido na APS à DRC em sua fase pré-dialítica, sob a perspectiva de 127 usuários do SUS em hemodiálise no município de Alfenas no Sul de Minas Gerais. Resultados e Discussão: A revisão de escopo (1) mostrou que a capacidade da APS para manejar a DRC-ND é heterogênea e depende da integração entre estrutura, processos e relações de cuidado. Ferramentas como prontuário eletrônico e teleconsultoria qualificam encaminhamentos e favorecem a coordenação com a atenção especializada, o que amplia a capacidade resolutiva; contudo intervenções isoladas não sustentam ganhos quando persistem baixa priorização da DRC nas agendas e fragilidades na comunicação do diagnóstico e no engajamento do usuário. Experiências promissoras combinam modelos colaborativos com apoio digital, facilitação para implementação de diretrizes e integração de agentes comunitários, o que sinaliza a necessidade de intervenções sistêmicas que articulem tecnologia, organização do cuidado e ações educativas centradas no paciente. No estudo transversal (2) com 127 pessoas em hemodiálise, observou-se perfil marcado por baixa escolaridade e renda. Em 90,6% dos casos, o diagnóstico de DRC ocorreu na atenção especializada; em 63%, o intervalo entre diagnóstico e início da diálise foi ≤ 6 meses, o que sugere detecção tardia. A avaliação da APS pelo PACIC indicou percepção predominantemente negativa em todas as dimensões, especialmente no estabelecimento de metas terapêuticas, no seguimento coordenado e na participação ativa do paciente. Os achados corroboram que vulnerabilidades sociais intensificam barreiras de acesso e de adesão e que o papel estratégico da APS foi limitado pelo rastreamento insuficiente e pela baixa incorporação dos atributos do cuidado crônico. A reorientação do cuidado à DRC-ND requer posicionar a Enfermagem como eixo da coordenação longitudinal. Recomenda-se institucionalizar protocolos de rastreamento e estratificação de risco, promover interoperabilidade entre APS e atenção especializada, organizar agendas programadas para seguimento e investir em educação permanente das equipes. Conclusão: A síntese de evidências e a perspectiva de usuários em hemodiálise mostraram diagnóstico majoritariamente tardio e trajetória assistencial com baixa incorporação dos atributos do cuidado crônico. Dado o perfil de vulnerabilidades sociais, recomenda-se fortalecer a capacidade institucional da APS, com a Enfermagem na coordenação do cuidado, a fim de reduzir atrasos diagnósticos e de assegurar manejo oportuno e integral da DRC-ND.
