Autocuidado de pessoas com feridas de difícil cicatrização nos membros inferiores acompanhadas nas estratégias saúde da família de um município do Sul de Minas Gerais
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Resumo
As feridas de difícil cicatrização destacam-se entre os problemas de saúde pública, pela alta prevalência e incidência, acometem a população em diversas faixas etárias, gênero e etnia. Produzem impacto negativo sobre a qualidade de vida, principalmente quando localizadas nos membros inferiores, pela longa duração do tratamento, tendo como desfecho, em algumas situações, a amputação. Nesse contexto, apreende-se que o cuidado de enfermagem deve ir além das ações técnicas voltadas para o tratamento da lesão, sendo importante compreender as necessidades específicas dessas pessoas e reconhecer que o impacto da lesão é singular, podendo afetar o autocuidado e a qualidade de vida de maneiras distintas. O objetivo foi compreender o autocuidado de pessoas com feridas de difícil cicatrização nos membros inferiores acompanhadas nas Estratégias Saúde da Família de um município do Sul de Minas Gerais. Estudo de abordagem qualitativa do tipo descritivo, desenvolvido com vinte e uma pessoas com feridas de difícil cicatrização nos membros inferiores. A coleta de dados foi realizada no domicílio dos participantes, pelo pesquisador treinado pela orientadora para este fim. Utilizou-se observação não participante, diário de campo, formulário de caracterização sociodemográfica e clínica, e as seguintes questões norteadoras para entrevista semiestruturada: como você se sente com esta ferida? Como você tem se cuidado com esta ferida? Como é para você realizar o seu tratamento na Estratégia Saúde da Família? Com cada participante foi realizada apenas uma entrevista gravada com autorização e duração média de 10 minutos. Os dados de caracterização sociodemográfica e clínica passaram por análise estatística descritiva simples e estão apresentados em dados absolutos e percentuais. Com os dados qualitativos realizou-se a análise temática de Minayo, fundamentada na Teoria de Enfermagem do Déficit de Autocuidado de Dorothea Orem. O estudo foi aprovado pelo Comitê de Ética da Universidade Federal de Alfenas sob o parecer nº 7.448.594 e os participantes assinaram o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido. Os resultados evidenciaram o predomínio de participantes do sexo feminino 12 (57,1%), com idades entre 47 e 86 anos, 14 (66%) com renda mensal de um salário mínimo, sendo 16 (76,19%) aposentados e 14 (66%) católicos. Quanto ao grau de instrução, 11 (52,38%) cursaram o ensino fundamental incompleto e 10 (47%) eram viúvos. Referente às comorbidades mais prevalentes 11 (52,38%) reportaram hipertensão arterial sistêmica e 10 (47,62%) diabetes mellitus. Quanto aos hábitos de vida, 15 (71,43%) negaram tabagismo e 20 (95,24%), afirmaram não fazer uso de álcool (95,24%). O uso de medicamentos contínuos foi relatado por 20 (95,24%), sendo os anti-hipertensivos os mais citados por 11 (55%), os hipoglicemiantes orais por 7 (35%) e insulina por 4 (20%). O tempo médio de convivência com a ferida foi de 15 anos. Por meio da análise dos dados qualitativos identificou-se os núcleos de sentido para compreender as múltiplas facetas que envolvem o autocuidado das pessoas com feridas de difícil cicatrização nos membros inferiores. Assim, construídas as seguintes categorias temáticas: Autocuidado comprometido: reflexo das marcas vísiveis e invisíveis da ferida de difícil cicatrização; A busca pela competência para o manejo da ferida: uma trajetória solitária para o autocuidado; O sistema de enfermagem como suporte para promoção do autocuidado de pessoas com feridas: potencialidades e limitações; Autocuidado de pessoas com feridas: desafios à equidade no processo terapêutico. A primeira categoria temática representa os sentimentos da pessoa com ferida de difícil cicatrização e revela que a vivência do ser humano com a lesão transcende a dimensão puramente física, afeta também o bem-estar psicossocial, emocional e espiritual. A segunda categoria temática foca nos comportamentos dos participantes em relação ao cuidado com a ferida e à saúde geral, por isso a Teoria do Déficit de Autocuidado de Orem se torna uma ferramenta analítica central, uma vez que, a "agência de autocuidado", refere-se a capacidade de a pessoa se engajar em ações para cuidar de si mesmo. A terceira categoria apresenta a Estratégia Saúde da Família e a rede familiar como os principais sistemas de apoio que atuam para compensar os déficits de autocuidado. E ainda, os elementos de suporte que fortalecem a agência de autocuidado e os obstáculos que limitam a eficácia desse sistema. Já na última categoria estão descritos alguns dos fatores condicionantes básicos, sendo estes, capazes de influenciar e afetar a capacidade de autocuidado por criar um cenário de vulnerabilidade. Conclui-se que o autocuidado de pessoas com feridas de difícil cicatrização é um processo dinâmico, influenciado por fatores biopsicossociais, espirituais e culturais. Desenvolver este estudo representou uma jornada de aprendizado científico e humano, consolidando a enfermagem como ciência voltada ao empoderamento e à promoção do autocuidado e da autonomia do ser humano.
