Ilustrações anatômicas de gravidez no século XVIII: ciência, técnica e ética na obra de William Hunter
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Resumo
Este artigo realiza uma análise histórico-crítica da trajetória e das contribuições do anatomista e obstetra escocês William Hunter, com ênfase em sua influência para a consolidação da anatomia obstétrica no século XVIII. A partir de revisão bibliográfica, o estudo examina sua obra monumental, Anatomia Uteri Humani Gravidi Tabulis Illustrata (1774), destacando suas inovações metodológicas, como o uso de técnicas avançadas de dissecação estratificada e a produção de ilustrações anatômicas executadas diretamente a partir da observação de cadáveres de gestantes. A análise evidencia como o atlas revolucionou a representação do útero grávido e do feto in situ, fornecendo base empírica inédita para o avanço da obstetrícia, contribuindo para a medicalização do parto e para a institucionalização dos man-midwives na prática clínica europeia. Paralelamente, o artigo problematiza as condições éticas de obtenção dos corpos utilizados, discutindo a provável relação com práticas de exploração de mulheres socialmente vulneráveis, cujas identidades foram apagadas do registro histórico. Argumenta-se que a obra de Hunter deve ser compreendida simultaneamente como marco científico e como documento revelador das tensões entre progresso médico e desigualdades sociais no contexto iluminista. Conclui-se que o estudo crítico de sua produção permanece fundamental para a compreensão da evolução do saber anatômico-obstétrico e para o fortalecimento da reflexão bioética na formação médica contemporânea.
