Reorganização da rede de drenagem sob controles morfoestruturais na Serra da Canastra (MG)

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Data

2026-03-03

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Resumo

A reorganização da rede de drenagem em áreas de tríplice divisor constitui um importante indicador da dinâmica evolutiva da paisagem, especialmente em contextos intraplaca, nos quais os sinais tectônicos são sutis e frequentemente sobrepostos por processos denudacionais de longa duração. Na Serra da Canastra (MG), esse processo ocorre em um arcabouço marcado pela herança estrutural brasiliana, pelo soerguimento cretáceo associado ao Arco da Canastra e por contrastes litoestruturais expressivos entre os grupos Araxá, Canastra, Bambuí e São Bento. Apesar do reconhecimento desses fatores, ainda persistem lacunas quanto ao papel dos contrastes litológicos na modulação da transitoriedade fluvial e da estabilidade dos divisores em ambientes intraplaca. Parte-se da hipótese de que sistemas de drenagem condicionados por estruturas herdadas e litologias mais resistentes apresentam valores do índice normalizado de declividade dos canais (ksn), deslocamentos mais expressivos do parâmetro χ, maior frequência de knickpoints e divisores menos estáveis. Para testá-la, foram aplicadas métricas morfométricas integradas (χ, ksn, knickpoints, índice de concentração de rugosidade, frequência de canais, densidade de drenagem e análise de lineamentos estruturais) em três sub-bacias com nascentes na Serra da Canastra (Alto Araguari, Alto São Francisco e Baixo rio Grande), associadas à análise estrutural e validação em campo. Foram identificados 431 knickpoints, concentrados principalmente em terrenos quartzíticos, basálticos e ao longo de zonas de falha. Os resultados indicam maior eficiência erosiva do sistema do baixo rio Grande, evidenciada por valores elevados de ksn e deslocamentos sistemáticos de χ, promovendo migração direcional de divisores e incorporação progressiva de áreas anteriormente drenadas para o Alto São Francisco e o Alto Araguari. Uma macrocaptura Paraná–São Francisco propagou ondas erosivas regressivas em direção à Serra da Canastra, resultando em três frentes principais de captura fluvial. A propagação dessas frentes mostrou-se fortemente modulada pela heterogeneidade litoestrutural. Quartzitos micáceos e xistosos do Grupo Araxá favoreceram múltiplas capturas e vales encaixados, enquanto os pacotes quartzíticos mais espessos do Grupo Canastra atuaram como barreiras morfoestruturais temporárias, retardando o avanço dos knickpoints e preservando superfícies elevadas, como os chapadões da Zagaia e do Diamante. O modelo proposto integra perturbações regionais do nível de base, herança estrutural e resistência diferencial das rochas, demonstrando que a reorganização da drenagem ocorre de forma segmentada e progressiva, controlada por alinhamentos estruturais e contrastes litológicos. Conclui-se que a rede de drenagem da Serra da Canastra encontra-se em estado transiente, e que a dinâmica dos divisores resulta da interação entre forçantes tectônicas de longa duração e controles litoestruturais locais. A metodologia adotada contribui para o entendimento da evolução da paisagem em ambientes intraplaca e oferece subsídios para estudos semelhantes em outras regiões do Brasil Central.


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