Efeitos in vitro do canabidiol na citotoxicidade induzida por metil-éster de anidroecgonina em astrócitos hipocampais: participação dos receptores cb1 e trpv1
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Resumo
O consumo de crack envolve a inalação da cocaína e de seu principal produto de pirólise, o metil-éster da anidroecgonina (AEME), um composto neurotóxico capaz de induzir estresse oxidativo e apoptose. No entanto, seus efeitos sobre células gliais permanecem pouco conhecidos. Considerando que os astrócitos são as células gliais mais abundantes do SNC e essenciais para a homeostase neuronal e o sistema antioxidante, este estudo avaliou os efeitos do AEME sobre a viabilidade, os níveis de cálcio intracelular, a reatividade e capacidade antioxidante de astrócitos hipocampais, bem como a possível modulação pelo canabidiol (CBD) e a participação dos receptores CB1 e TRPV1. Astrócitos hipocampais de ratos neonatos foram expostos, por 2 h 30 min, a CBD (10 μM), rimonabanto (RIMO, 1 μM), capsazepina (CAPS, 30 μM) e AEME (0,1 mM), isoladamente ou em combinações. A viabilidade celular foi avaliada pelo ensaio de MTT, a reatividade pela expressão de GFAP, os níveis de cálcio por ensaio colorimétrico e a capacidade antioxidante pelos níveis de GSH. Todos os procedimentos foram aprovados pelo Comitê de Ética em Pesquisa Animal da UNIFAL (protocolo 0024/2025). O AEME reduziu significativamente a viabilidade dos astrócitos em relação ao controle (8,06 ± 0,42% vs. 99,99 ± 2,52%; p < 0,001). O CBD (66,75 ± 4,43%; p < 0,001), RIMO (77,62 ± 4,94%; p < 0,001) e CAPS (89,02 ± 1,44%; p < 0,001) isoladamente também diminuíram a viabilidade. A co-incubação de CBD com AEME atenuou parcialmente a toxicidade induzida pelo AEME (21,00 ± 1,05% vs. 8,06 ± 0,42%; p < 0,01). Tanto o AEME (p < 0,05) quanto o CBD (p < 0,01) aumentaram a expressão de GFAP, sem alterações significativas pela presença de antagonistas. O AEME aumentou significativamente os níveis de cálcio intracelular em comparação ao controle (114,58 ± 4,54 vs 395,22 ± 0,74; p<0,001). Esse aumento foi atenuado pela co-incubação com CBD + AEME (213,97 ± 3,50; p<0,01), RIMO + AEME (155,46 ± 8,70; p<0,001) e CAPS + AEME (151,49 ± 9,24; p<0,001). A presença dos antagonistas não aboliu o efeito redutor do CBD sobre os níveis de cálcio intracelular. Em relação ao GSH, a exposição ao AEME reduziu significativamente seus níveis em comparação ao grupo controle (3,32 ± 0,17 vs. 1,47 ± 0,36; p < 0,05). De forma semelhante, o tratamento isolado com CBD também promoveu depleção do antioxidante (3,32 ± 0,17 vs. 1,49 ± 0,16; p < 0,05). Por outro lado, a co-incubação de AEME com os antagonistas resultou em níveis de GSH significativamente maiores do que aqueles observados no grupo tratado apenas com AEME, tanto para RIMO + AEME (3,46 ± 0,16 vs. 1,47 ± 0,36; p < 0,05) quanto para CAPS + AEME (4,66 ± 0,01 vs. 1,47 ± 0,36; p < 0,01). Entretanto, a adição de CBD às combinações de AEME com os antagonistas resultou em uma redução significativa dos níveis de GSH em relação aos grupos tratados com AEME + CAPS (4,66 ± 0,01 vs. 1,28 ± 0,11; p < 0,01) e AEME + RIMO (3,46 ± 0,16 vs. 0,62 ± 0,12; p < 0,01). Portanto, os resultados indicam que o AEME reduz a viabilidade, aumenta os níveis intracelulares de cálcio, diminui os níveis de GSH e aumenta a expressão de GFAP nos astrócitos, enquanto o CBD isolado apresenta efeitos semelhantes. A combinação com CBD atenuou parcialmente a redução de viabilidade e o aumento de cálcio induzido pelo AEME, mas não preveniu alterações em GFAP ou GSH. A análise dos receptores CB1 e TRPV1 sugere que essas vias modulam principalmente os niveis de cálcio e a disponibilidade intracelular de GSH, sem impactar significativamente a viabilidade ou a reatividade astrocitária. Em síntese, nas condições empregadas, o CBD apresentou efeito dual, atenuando parcialmente a toxicidade induzida pelo AEME, mas impactando negativamente os astrócitos em condições basais.
