Interações afetivas breves não melhoram a leitura de gestos humanos por cães de abrigo
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Resumo
A habilidade de cães domésticos em interpretar gestos de apontar realizados por humanos é amplamente documentada na literatura científica. No entanto, essa capacidade ainda não foi devidamente avaliada em cães de abrigo, sujeitos a históricos de vida diferentes dos de animais de estimação, que podem influenciar seus processos de desenvolvimento, bem como suas características cognitivas e comportamentais. Este estudo teve como objetivo testar a hipótese de que uma interação afetiva breve exerce influência positiva sobre a capacidade dos cães de abrigo em seguir gestos de apontar realizados por humanos. Participaram 56 cães, divididos em dois grupos: Familiar (n=24), que recebeu interação afetiva com a experimentadora por 5 dias antes do teste, e Não Familiar (n=32), com contato apenas no dia do teste. Cada cão participou de 2 ou 3 testes, totalizando 166 ensaios. Em cada ensaio, a posição do pote com comida (lado direito ou esquerdo) foi randomizada (controlando para lateralidade). Registramos se o cão se aproximava do pote correto ou incorreto, conforme apontado pela experimentadora. Analisamos os dados mediante modelo linear generalizado misto com efeito aleatório para cão, testando o efeito da familiaridade (fator fixo) na precisão de seguir o gesto nos dois grupos (escolha correta ou incorreta). Os resultados mostraram probabilidades médias de acerto ajustadas de 61,5% (IC95%: 51,4-70,6%) para o grupo Não Familiar e 52,9% (IC95%: 41,2-64,2%) para o grupo Familiar, que não diferem estatisticamente. Porém, ao testar contra o nível de acaso (50%), o grupo Não Familiar apresentou desempenho significativamente acima do esperado (p=0,0261), enquanto o grupo Familiar não diferiu do acaso (p=0,6328). Não encontramos efeito do lado da comida (p=0,6414), porém houve preferências laterais (p=0,0003) na precisão, com cães escolhendo mais o lado direito no geral. Esses resultados sugerem que a interação afetiva breve prévia pode não ser condição necessária para a compreensão de gestos humanos por cães de abrigo. Contrariamente às hipóteses iniciais, os resultados indicaram que cães sem esta interação breve estabelecida seguiram o gesto com maior precisão. A diferença na responsividade de cães na resolução de problemas, particularmente ao se comparar a leitura de gestos de um humano familiar e um não familiar, pode ser explicada por três mecanismos interligados. O maior foco atencional e neofilia indicam que cães com histórico de privação social (como os de abrigo) podem entender o humano não familiar como um estímulo novo que atrai um certo foco investigativo. Esse estímulo permite uma possível concentração maior na tarefa e possível redução de distrações sociais, já que a pessoa não familiar não carrega a previsibilidade de uma pessoa familiar. A interferência emocional sugere que a presença de uma pessoa familiar pode criar um estado de excitação, prejudicando a atenção do cão a pistas sutis. Sendo assim, cães com maior familiaridade podem vir a priorizar a recompensa social (carinhos, elogios) da pessoa familiar, que compete com o foco na tarefa, enquanto cães não familiarizados são possivelmente mais motivados por recompensas instrumentais (comida, brinquedo), tornando seu desempenho mais focado na resolução da tarefa do que na interação social. Portanto, esses resultados sugerem que a ontogenia individual dos cães deve ser considerada em relação a sua responsividade a sinais comunicativos humanos.
